AO VIVO
OUÇA A NOSSA PROGRAMAÇÃO
Emile Cilliers foi condenado neste mês no Reino Unido à prisão perpétua – com possibilidade de liberdade condicional depois de cumpridos 18 anos da pena, por tentar matar sua mulher.
Três anos antes, o sargento das Forças Armadas britânicas havia sabotado o paraquedas de Victoria Cilliers na véspera de ela saltar. Ela sobreviveu por um “milagre”. E ele acabou desmascarado por sua própria infidelidade.
Na tarde de 30 de março de 2015, enquanto Cilliers dirigia para casa depois do expediente, ele já sabia que seu plano de matar a esposa asfixiada pelo gás que deixara vazando na cozinha não havia funcionado.
Ele então sacou seu iPhone novo, que havia comprado com o dinheiro da mulher, e enviou-lhe uma mensagem de texto. A roda foi colocada em movimento mais uma vez – ninguém poderia sobreviver ao que ele havia planejado desta vez para dar cabo à vida da esposa.
Ele só não imaginava que, quando Victoria Cilliers despencasse no chão depois de uma falha aparentemente fatal em seu paraquedas, sua própria vida sofreria uma reviravolta.
A primeira tentativa de Cilliers tinha sido na casa do casal. Ele tinha deixado tudo preparado: tinha aberto a válvula de gás da cozinha antes de sair para encontrar a amante – sua ex-mulher Carly, com a segurança de que seu filho recém-nascido e sua esposa, exausta da rotina de cuidar de duas crianças, já estavam dormindo.
Quando seu encontro com Carly acabou, ele mandou uma ou duas mensagens para a namorada Stefanie, acessou um site pornô “por curtição” e dirigiu por 45 minutos para o quartel em Aldershot, a cerca de 60 km de Londres.
Na manhã seguinte, Victoria Cilliers acordou e foi à cozinha para buscar leite para um dos filhos.
Ela sentiu cheiro de gás.
Mandou mensagem para o marido, perguntando se ele havia mexido na válvula da cozinha, já que havia sangue ao redor dela. “Está tentando se livrar de mim?”, ela brincou, sem fazer ideia de que era realmente isso que ele queria.
O casamento não era um mar de rosas, mas Victoria não tinha ciência da gravidade da situação. Era uma mulher apaixonada. Ainda que suspeitasse da infidelidade do marido, ela nunca imaginaria que ele tentaria matá-la não apenas uma, mas duas vezes.
Mas Emile Cilliers estava acostumado a fazer as coisas do seu jeito. Quando ele queria dinheiro, pegava emprestado somas vultosas da mulher, de colegas e de empresas de crédito consignado. Quando queria sexo, procurava prostitutas, se envolvia em romances casuais. Tinha casos com a ex-mulher e uma namorada que vivia fora. Quando queria tirar férias com a namorada, dizia à esposa que tinha uma viagem de trabalho. Quando quis que Victoria saísse de sua vida, ele tentou matá-la.
Sargento no Corpo de Treinamento Físico do Exército Britânico (RAPTC, na sigla em inglês), Cilliers com frequência se voluntariava para dar treinamento em campos no exterior.
Havia algum tempo ele pernoitava no quartel em Aldershot, depois de muito reclamar do trajeto de 45 minutos de sua casa em Amesbury, no condado de Wiltshire, ao trabalho.
Victoria achava que ele estava ficando cada vez mais frio e tinha medo de que ele a abandonasse e às crianças. À medida que Cilliers, pai de seis filhos, ficava mais distante, Victoria ficava cada vez mais em cima do marido. Mandava mensagens e e-mails quando ele estava longe de casa dizendo que o amava e que sentia sua falta.
E aproveitava para falar sobre o medo que tinha de que ele tivesse se apaixonado por outra pessoa ou de que estivesse se envolvendo com alguém. “Me sinto um fracasso como esposa”, ela escreveu em uma das mensagens.
Ela já tinha cicatrizes emocionais dos episódios de infidelidade do primeiro marido, uma vulnerabilidade que Cilliers se apressou em explorar. Ele colocava a culpa da insegurança da mulher em suas experiências anteriores e dizia que ela era muito “emotiva”.
Ao mesmo tempo, dizia a ela que precisava de tempo para pensar. “Preciso decidir se quero ou não continuar neste casamento”, ele disparou, enquanto estava na Áustria esquiando com as Forças Armadas. “Talvez nós tenhamos casado depressa demais”.
Victoria, que na época estava prestes a dar à luz seu segundo filho, chorou tanto que pensou “ter machucado o bebê”. Ela não tinha ideia de que ele já estava planejando uma vida com outra mulher. Em paralelo, as dívidas de Cilliers estavam saindo do controle.
Ao longo dos sete anos em que eles estiveram casados, Victoria lhe havia dado mais de 19 mil libras (cerca de R$ 95 mil) porque achava que ele lhe devolveria o montante em prestações pequenas, mas regulares. Às vezes ele pagava; às vezes, não.
Preocupada com a ideia de que ela e o marido estavam se afastando, Victoria ficou animada quando recebeu uma mensagem dele sugerindo que eles pulassem de paraquedas juntos no fim de semana da Páscoa.
Afinal, ele não tinha se dado ao trabalho de escrever uma linha no Ano-Novo, enquanto estava fora, no que Victoria acreditava ser uma viagem de trabalho – e que era, na verdade, uma escapada romântica para Berlim com Stefanie.
Em casa, a mulher lidava com as implicações dos gastos desenfreados e os empréstimos do marido. Um oficial de Justiça enviado em nome de uma empresa de crédito consignado havia estado na casa do casal. Sozinha, grávida e com um filho pequeno, ela se sentiu intimidada e com medo.
Por isso, decidiu enviar uma mensagem ao marido. Ele replicou: “Por que você está preocupada? Eles não podem fazer nada.”
Cilliers tinha tomado uma série de empréstimos a taxas exorbitantes e vinha pedindo dinheiro a amigos com a promessa de que lhes pagaria de volta. Chegou a transferir três remessas de 2 mil libras da poupança de Victoria para sua conta própria sem que ela soubesse.
Quando ela se deu conta das transações, ele sugeriu que a conta da esposa havia sido hackeada. Após investigar a suposta fraude, o banco descobriu que o endereço do IP era do computador da família.
Apesar das turbulências, naquele dia antes da Páscoa de 2015, quando Cilliers sugeriu que eles pulassem de paraquedas, Victoria ficou feliz que ele quisesse não apenas fazer algo divertido, mas fazê-lo com ela.
Por: BBC Brasil